![]() |
![]() |
![]() |
||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||
Exmas Senhoras, Exmos Senhores, Prezados Amigos, A minha primeira palavra, é uma palavra de agradecimento, a todos quantos aqui se encontram, e vieram partilhar comigo este momento tão especial da minha vida. Grato me sinto também por a Reitoria da Universidade de Lisboa, na pessoa do seu Reitor, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa, ter permitido aqui o lançamento deste meu livro, por o jornalista José Manuel Fernandes, Director do Jornal Público não se ter escusado à sua apresentação e por ter ao meu lado quem tenho: o Prof. Doutor Adriano Moreira, o General Silvino Silvério Marques, o Dr. Fernando Corvelo e o editor, Assírio Bacelar. Para todos o meu Bem Hajam. Cumpre-se, hoje, um dos mais significativos objectivos da minha já longa jornada. Fala este livro, que hoje se apresenta, de um período relativamente curto da minha vida – um pouco mais de três anos -, mas pleno de acontecimentos. Quando olho para trás, dos meus 90 anos, vejo uma vida preenchida por muitos desafios e empreendimentos, mas este conta-se entre os que contemplo com mais carinho. Cheguei a Angola no dia 9 de Novembro de 1975, com motivações profissionais, para integrar os quadros administrativos da Diamang, transportado no avião 747 da TAP, no seu último vôo antes da independência que ocorreu dois dias depois, MAS DE QUE GUARDO A RECORDAÇÃO DE QUE ÉRAMOS APENAS CINCO PASSAGEIROS, CERTAMENTE CASO ÚNICO NO MUNDO, num avião desta grandeza e numa viagem tão longa como a de Lisboa a Luanda. Estive preso sem culpa formada, na minha casa no Dundo, na Lunda Norte. Meses depois o administrador Sr. Engº Mário Paiva Neto teve de fugir, em segredo, também do Dundo, num avião Canadiano Hércules, para também não ser preso. Ele o mais importante responsável da nossa companhia, confiscada depois da independência. Durante os anos de cativeiro nas prisôes angolanas, de 1977 a 1980, fiz de todas as oportunidades uma ocasião para tornar esse tempo um reservatório de memórias. Procurei os meios para arquivar o que via e ouvia, quando comecei a perceber que estava num dos palcos da tragédia angolana – a cadeia de São Paulo, depois de ter passado pela Casa de Reclusão. As páginas deste livro são feitas, de facto, de memórias, as memórias dos acontecimentos e dos testemunhos. Tirando alguns períodos de maior agressividade, consegui alguma liberdade de circulação dentro da prisão. Achavam que eu era um cota inofensivo. Um problema inicial se colocava (na cadeia era proibido possuir papeis) como registar a informação? Todos saberão que o universo prisional é um antro de tabaco. Os invólucros dos maços de tabaco que todos deitavam fora tornaram-se, para mim, um bem precioso, permitindo a anotação de tudo o que ouvia e conversava com os companheiros de destino, num código por mim forjado, recuperando a minha já remota experiência militar. Antes de ter uma cela só para mim, servia-me sobretudo dos períodos de entretenimento que os outros presos passavam a ver televisão. Mas vivi, de facto, um risco capital. Eu não teria saído vivo de Angola se, na prisão, tivessem encontrado os meus apontamentos. Algumas vezes escapei por um triz. Outro problema. Como fazer sair da cadeia aquela informação? É preciso não esquecer que estes contextos de violência arbitrária são lugares onde a corrupção cresce com facilidade. Assim, segundo expedientes que só conheci depois de sair de Angola, aqueles que me davam apoio faziam-me chegar à prisão malas (semanalmente vindas de Lisboa), com diversas coisas necessárias para o quotidiano. Com as malas iam muitos outros produtos pedidos, que eu nem chegava a ver, para satisfazer as autoridades. Dentro desses sacos vinha uma folha de cartão que lhes dava forma. Ele era constituído por inúmeras folhas prensadas que eu separava cuidadosamente. Depois voltava a juntá-las, mas agora com os meus manuscritos codificados, no interior delas. A operação seguinte era voltar a dar à folha de cartão o seu aspecto original. Os sapatos conheceram a mesma utilidade. Descoladas as forras, os enchimentos e as solas, escondia aí muitos apontamentos cifrados. Foi assim que, durante cerca de três anos e meio, emigraram da prisão uns quatro mil apontamentos, narrativas do quotidiano, desabafos, pequenas histórias de vida, denúncias, etc. De que falam esses apontamentos? É preciso ter em conta que eu estava preso quando se deu a tentativa de golpe nitista de 27 de Maio de 1977. O período que se seguiu pode ser descrito como uma feroz limpeza política. Na prisão, conheci muitas vítimas e testemunhas directas desses processos. A prisão tornou-se rapidamente um retrato da geografia do terror, com narrativas acerca de confissões arrancadas com recurso à tortura, condenações sumárias, fuzilamentos, etc. Em certos casos, alguns daqueles que eram mandados para o fuzilamento acabavam por escapar, por várias razões, e iam parar à prisão. Noutros casos, os que participavam no transporte dos condenados ou nos pelotões de fuzilamento acabavam também por cair em desgraça mais tarde. Essas testemunhas confiaram-me algumas descrições de pormenor. Nunca existiram dados controláveis relativos ao número de prisioneiros que permaneceram em contextos diversos de reclusão. São Nicolau, Moxico, Sapu, Huambo, Kibala são alguns dos «campos de reeducação» que pude identificar na informação obtida junto dos outros presos. Em São Paulo, pude recolher os dramáticos testemunhos de numerosos prisioneiros oriundos do Campo da Kibala e, por isso mesmo, este é o campo de que o livro fala com informação mais abundante e concreta. Entre os meus companheiros de reclusão, ir parar à Kibala era uma das piores coisas que podia acontecer. Quando conheci de novo a liberdade, a minha primeira missão foi descodificar todos aqueles apontamentos, pois havia o risco de eu perder a memória de muitos dos pormenores que eram essenciais para a interpretação dos fragmentos. Foram anos de trabalho diário, realizado em Lisboa e em Paris. O resultado foi uma vasta documentação de recolha oral que fechei no cofre de um Banco. Demorei também vários anos para ganhar a coragem e a disponibilidade necessárias para construir um livro que honrasse a memória dessa experiência. O trabalho era gigantesco. Acabei por escolher dentro dessas notas um determinado percurso. O que neste livro se apresenta corresponde a menos de metade dessas anotações. Hoje é, por isso, um dia de gratidão. Não posso deixar de agradecer a todos os que tornaram esta edição possível. Falo de holocausto em Angola para chamar a atenção para o tamanho da tragédia. Não pretendo desrespeitar a memória daquele «holocausto» que a Europa conheceu em pleno século XX. Pretendo sim encaminhar para as vítimas angolanas os mesmos sentimentos de solidariedade e o mesmo ímpeto de responsabilização. Tenho a esperança de que esta ampla relação de factos e testemunhos honre a memória de todos os que me confiaram o seu sofrimento. DEIXEM QUE RECORDE PARTICULARMENTE TODOS OS QUE VI PARTIR DE FINS DE MAIO A OUTUBRO DE 1977 para o destino de fuzilamento. MUITOS RECEBERAM DE MIM O ÚLTIMO ABRAÇO QUE LEVARAM DESTA VIDA.
|
|
|||||||||||||||||