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Exmas. Senhoras, Exmos. Senhores, Prezados Amigos, Enquanto responsável editorial da Vega, chancela sob a qual foi publicada a obra que aqui temos para vos apresentar, Holocausto em Angola – Memórias de entre o Cárcere e o Cemitério, de Américo Cardoso Botelho, cabe-me, antes do mais, apresentar, em meu nome e no da editora que dirijo, os nossos maiores agradecimentos a todas as entidades que tornaram possível a realização deste lançamento: à Reitoria da Universidade de Lisboa que, nas pessoas do seu Reitor, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa, e da responsável pela Divisão de Actividades Culturais e Imagem, Dra. Isabel Bruxo, disponibilizou graciosamente este digníssimo e significativo espaço académico; ao jornalista José Manuel Fernandes, Director do jornal Público que do mesmo modo e magnanimamente aceitou incumbir-se da apresentação deste livro; às ilustres personalidades que compõem esta mesa: Professor Doutor Adriano Moreira, que, uma vez mais, nos concedeu a honra da sua presença, General Silvino Silvério Marques, que no-la concede pela primeira vez, ao meu Amigo e Autor, Engenheiro Américo Cardoso Botelho, que embora confrontado com limitações de saúde não quis deixar de estar presente, e a toda a distinta e eclética assistência que, pelo Autor, por nós ou pelo interesse que o livro lhes suscita, quiseram partilhar connosco este relevante momento do nosso itinerário editorial. Uma palavra também de agradecimento póstumo para o jornalista Armando Rafael, à data em que faleceu Assessor do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que também faria parte desta mesa se prematura e inesperadamente não tivesse sido arrebatado do nosso convívio. Por inerência do cargo que ocupo, pelas relações de fraterna amizade que criei e mantenho com o Autor e porque a presente edição se reveste de uma particular importância para mim e para a editora que oriento, obrigado me sinto a dirigir-vos algumas palavras. Serei no entanto breve e di-las-ei à margem do conteúdo do livro uma vez que José Manuel Fernandes, como conceituado jornalista que é, muito melhor e mais isentamente do que eu poderá relevar a sua importância e oportunidade. Começarei por me reportar a duas questões que o Autor me colocou imensas vezes durante os porfiados trabalhos da composição da obra: se ao longo da minha já extensa carreira de editor alguma vez tinha publicado um livro como este e se Holocausto em Angola – Memórias de entre o Cárcere e o Cemitério não podia considerar-se um livro único. Particularmente envolvido em todos os trabalhos inerentes à sua edição, mormente na revisão de todos os textos que o enformam, achei as questões pertinentes e procurei responder-lhe de acordo com o que verdadeiramente pensava acerca delas e aqui exponho publicamente por pensar que algum interesse poderão ter para quem tiver a paciência de me escutar. Quer acerca de Angola, quer acerca de outros países lusófonos, muitas são as obras que publiquei no decorrer da minha carreira de editor, a coberto deste e de outros projectos editoriais. Muito em especial no domínio da História ou correlativamente a ela, área que sempre foi e é do meu maior interesse, orgulho-me de ter publicado muitas obras de conceituados autores nacionais e estrangeiros que são de uma importância fundamental para um melhor estudo, conhecimento e aprofundamento dos seus vários e cruciais períodos, dos muitos mitos e lendas que acerca dela se têm criado e das bastas falsidades e mistificações de que ela tem sido objecto ao longo dos séculos. O mesmo posso dizer em relação a livros de memórias, contributos essenciais para a complementaridade da História e, em certos casos, para a desmistificação de alguns dos seus protagonistas, como é o caso do presente livro. Em todas as ocasiões tive sempre a preocupação de promover a publicação de obras que, à luz de novas e abalizadas investigações, de dados históricos suficientemente sérios e comprovados ou testemunhos vivenciais de reconhecida idoneidade e insuspeita seriedade, pudessem contribuir para uma clarificação da História, libertando-a de todos os maniqueísmos e manipulações e tornando-a tão crível e verdadeira quanto possível, de forma a termos uma visão mais concreta e objectiva dos seus avanços e retrocessos em direcção ao desenvolvimento e progresso civilizacional e melhor podermos avaliar o que ela tem de positivo e evolutivo quando se projectou nesse primeiro sentido ou o que tem de negativo e retrógrado quando seguiu um caminho inverso. Nessa linha se insere Holocausto em Angola – Memórias de entre o Cárcere e o Cemitério, que, por tudo o que nos dá a conhecer sobre o drama que o seu Autor viveu em Angola durante cerca de três anos e meio, entre 1977 e 1980, e, numa escala incomensurável e trágica, o povo angolano, muitos portugueses e estrangeiros, não só é de facto um livro como eu, até hoje, nunca tinha publicado, como também é um livro único. Tendo-o lido mais do que uma vez, por força do acompanhamento a que me propus, gravaram-se na minha memória, creio que para sempre, muitos dos relatos dramáticos e pungentes que o Autor faz do cativeiro a que esteve sujeito nesse período bem como os que faz acerca dos seus companheiros de infortúnio que como ele foram obrigados a conhecer os infernos prisionais de Angola - espaços de detenção, tortura e morte a fazer lembrar os tristemente célebres campos de extermínio nazis - nesse conturbado período. Confesso mesmo que alguns desses relatos me provocaram noites de insónia e pesadelo tal a dimensão da violência e desumanidade que os habita. Conquanto não desconhecesse, pelo muito que tenho lido e publicado e pelo que os meios de Comunicação Social nos revelam diariamente, que a História, tanto antiga como recente, está ensombrada por guerras e conflitos da mais obscura natureza e da mais extrema crueldade, que os homens, como eternos cavaleiros do Apocalipse, persistem em se destruir uns aos outros, e que em Angola, tanto durante o colonialismo português como após a independência, haviam tido lugar situações e actos de violência altamente condenáveis, não foi sem espanto e perplexidade que percorri as centenas de páginas de que se compõe este livro. Perguntando-me a cada passo, perante a narração de cenas de crueldade inimagináveis, como fora possível que, numa terra já tão martirizada pela guerra de libertação e por conflitos armados entre partidos rivais, ainda de luto pelos milhares de filhos perdidos, pudesse ter-se reacendido, por via da ambição desmedida de um poder único e absoluto, uma guerra sem tréguas nem piedade de irmãos contra irmãos. Como fora possível que Angola, uma vez conquistada a independência a que tinha pleno direito, detentora de uma dimensão geográfica e de riquezas naturais mais do que suficientes para dar lugar a toda a sua população e lhe proporcionar o seu devido e almejado bem-estar, reincidisse numa luta fraticida voltando a manchar-se com o sangue de outros tantos milhares de filhos cujo único crime terá consistido em discordarem de um poder hegemónico e ditatorial? Como pudera o homem que ambicionava esse poder, médico e poeta, que por essa condição devia, mais do que qualquer outro, defender a preservação da vida, ir ao extremo de recorrer a forças estrangeiras para mandar prender, torturar, matar e chacinar, com requintes de crueldade arrepiantes, numa escala sem paralelo na história desse país, todos os seus opositores, sabendo de antemão que muitos haviam sido seus amigos e companheiros de luta pela independência e que, para além disso, eram, na maioria seus irmãos de raça? Onde estava o poeta que escrevera na Sagrada Esperança: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça…/ Porque deles será a Pátria/ e o amor do seu povo…” e o político que defendia, no discurso da sua investidura como Presidente, e passo a citar, … a organização do poder popular a todos os níveis será uma preocupação constante, a fim de serem preparadas as condições para um avanço rápido em direcção a uma democracia popular… ou ainda o reflexo prático do artigo 17º da Lei Constitucional Angolana que prescrevia: “ O Estado respeita e protege a pessoa e dignidade humana. Todo o cidadão tem direito ao livre desenvolvimento da sua personalidade, dentro do respeito devido aos direitos dos outros cidadãos e dos superiores interesses do Povo Angolano…” Muitas outras interrogações que essa leitura me suscitou poderia enumerar como, por exemplo, as que formulei em relação à conivência estrangeira nesses crimes e violações da dignidade humana e à passividade e indiferença com que eles foram e ainda hoje são olhados por países que se dizem defensores dos Direitos Humanos, mas ficarei por aqui. Voltando aos aspectos que conferem a este livro uma importância singular e única destacarei ainda mais dois por me pareceram altamente relevantes e demonstrativos do carácter humanista do Autor: o espírito de ajuda e solidariedade que ele, mesmo nos momentos de maior angústia e temor pelo seu destino, nunca deixou de demonstrar pelos seus companheiros de prisão, auxiliando-os em tudo quanto podia, com bens ou palavras de ânimo e conforto, e a coragem e determinação com que o mesmo, ainda que sob enormes riscos, se propôs anotar tudo o que via e ouvia para um dia, se sobrevivesse, vir a denunciar ao mundo essa barbárie e reclamar, em nome das inumeráveis vítimas e dos familiares que ainda hoje ignoram onde param os seus corpos para lhes prestarem as devidas honras fúnebres, que, mortos ou vivos, se julguem os seus responsáveis. Estou certo de que todos quantos lerem este livro, sobretudo aqueles angolanos que viveram esses dias terríveis e sobreviveram a esse holocausto e os muitos portugueses que para escapar a essa sorte se viram obrigados a abandonar esse país, que em muitos casos fora também seu berço e cuja independência haviam igualmente defendido, não deixarão de partilhar este desígnio do Autor que, como ele refere, foi a principal motivação deste seu livro e está na razão directa de um trabalho árduo e doloroso no qual empenhou durante muitos anos da sua vida. Como ele bem salienta, e se pode induzir do modo como descreve essa tragédia, não é de um ajuste de contas pessoal que se trata, mas tão somente de um apelo a que se apure, julgue e se responsabilize quem mais contribuiu para esse autêntico genocídio, violando todas as normas dos Direitos Humanos e enlutando o país com o sangue de milhares e milhares de inocentes. Num momento em que Portugal acaba de promover uma Cimeira Euro-Africana, na agenda da qual, primeiro que tudo, devia estar essa questão fundamental, é bom não nos esquecermos que, embora sob outra formas, esses direitos continuam a ser violados e que grande parte da população angolana, mergulhada na mais extrema miséria, fome e doença, continua a ver adiado o seu futuro. O que é tanto mais revoltante e condenável porquanto, como se sabe, Angola é um país rico e muitos dos seus principais dirigentes nem sequer escondem a ostentação em que vivem. Muito obrigado pela atenção que me concederam e a palavra para José Manuel Fernandes.
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